Quinta, 02 Dezembro 2021 | Login
Chegada de ponte amplia especulação imobiliária na Ilha de Itaparica

Chegada de ponte amplia especulação imobiliária na Ilha de Itaparica

A pandemia da covid-19 gerou um aumento de cerca de 20% nos preços do mercado imobiliário - seja em Salvador, Litoral Norte ou Linha Verde. Na Ilha de Itaparica não é diferente. Segundo corretores locais, a especulação imobiliária na região provocou uma alta de até 88,9% nos preços não só dos imóveis, mas dos lotes e terrenos. Eles acreditam que seja pela aproximação do início das obras da ponte Salvador-Itaparica. A expectativa é que ela comece a ser construída até o início de 2022, após a obtenção da licença ambiental.

“Brinco que quem primeiro atravessou a ponte foi a especulação imobiliária. É algo que, de alguns anos para cá, se percebe a majoração dos preços. Parece que o povo daqui pensa que está em Angra dos Reis ou na Côte d’Azur, de tão inflacionados que estão os preços, com o prenúncio da construção da ponte. Na sede e no centro da Ilha, você não encontra nada inferior a R$ 200 mil”, relata o morador Augusto Albuquerque, advogado.

A especulação acontece quando as pessoas passam a comprar e manter um terreno ou espaço sem uso, aguardando melhorias na localidade que o valorizem e possibilitem depois a venda por um preço mais elevado. O surgimento de comércio, de escolas, de novos sistemas de transporte ou a abertura de novas vias que tornem a região mais acessível, como é o caso da ponte, aumentam o valor de terrenos e imóveis, mesmo que não haja nenhuma modificação neles.

Segundo o diretor do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), Noel Silva, a melhoria do acesso a uma localidade é um fator certeiro para a especulação imobiliária. “Se você pega uma cidade do interior e anuncia a construção de uma boa estrada, de um aeroporto ou outro tipo de equipamento que possa trazer mais pessoas para aquele local, evidentemente vai acontecer uma dinâmica de aquecimento do mercado. Um exemplo disso foi o metrô de Salvador. Quando ele foi inaugurado, houve uma valorização efetiva dos imóveis situados no entorno”, pontua.

Um terreno de 440 m², por exemplo, no Condomínio Praia do Caribe, na praia da Barra do Pote, no município de Vera Cruz, custa, hoje, R$ 170 mil. Em dezembro do ano passado, a mesma área custava entre R$ 90 e R$ 100 mil. Segundo o corretor Edmilson Barbosa, dono da Esbimóveis, empresa que existe há 21 anos na região, a praia é uma das mais cobiçadas da Ilha. “Houve uma revolução por conta da perspectiva da ponte, é evidente. Agora com a quase plena definição, vai melhorar mais ainda. De um ano para cá, os terrenos aumentaram quase 100%”, afirma Barbosa.

O retorno se tornou tão lucrativo que, há dois anos, o corretor passou a comprar mais lotes por conta própria. “Minha política agora é comprar e vender, porque tem sido mais lucrativo do que vender terreno de terceiros”, conta. Ele afirma que os clientes mais comuns são casais com vida financeira estabilizada, em busca de estabelecer empreendimentos, como em Aratuba e Cacha-Pregos. Cerca de 20 pessoas por dia ligam para ele interessadas. A maioria da Bahia mesmo, de cidades como Salvador, Santo Antônio de Jesus, Valença e Feira de Santana.

Já Fátima Zucco diz que o local mais requisitado na sua corretora é perto da Praia de Conceição. “Os preços estavam mais em conta no início da pandemia, mas tiveram um grande aumento, porque a procura também aumentou, em torno de 30%. Os locais mais procurados são a da praia de Conceição e, também, a de Tairu e Barra do Pote”, afirma Fátima, que trabalha com corretagem há 12 anos.

Os principais interessados que ligam para ela são pessoas acima de 60 anos, que buscam maior qualidade de vida. Os preços das casas variam de R$ 380 mil a R$ 1,5 milhão, a depender da localização. “Está todo mundo querendo ir para a Ilha, com a história da ponte. Recebo duas a três ligações quase todo dia, principalmente de gente que está se aposentando agora, e pessoas de São Paulo”, acrescenta.

Leia mais: Governo autoriza desapropriação de áreas para construção da Ponte Salvador-Itaparica

O estudante de engenharia civil Lucas Rocha passou a comprar pequenos lotes para aumentar seu patrimônio. Até então, ele observou uma alta sutil nos preços. “Não vi nada de absurdo, apesar de ter ficado mais caro. Nos próximos anos é que o aumento vai ser muito significativo, coisa de dobrar a triplicar, por conta da ponte. Já adquiri um lote e pretendo adquirir outros, porque sei que vai ter muita especulação. É uma boa oportunidade para quem quer fazer um bom patrimônio no intervalo de cinco anos”, orienta Rocha.

Descrédito

Para corretor Marlúcio Lucas, morador da Ilha há 20 anos, os valores dos imóveis têm aumentado, porém, não por conta da construção da ponte e, sim, pelos altos preços dos materiais de construção. “Não vi ainda a notícia da construção da ponte refletir no aumento da valorização dos imóveis. Talvez por conta do descrédito, as pessoas querem ver se vai acontecer mesmo. Mas a procura, em si, tem aumentado, de dois meses para cá, e, praticamente, dobrou desde o anúncio. Só que ainda não se converteu em venda”, relata Lucas, que tem a imobiliária há 40 anos. A maior parte de seus clientes são da Bahia, sendo 30% de Salvador.

Já na imobiliária de Almiro Xavier, as vendas ainda não tiveram aumento depois da queda provocada pela pandemia. “Tem muita gente ainda esperando para ver, porque a ponte parece uma lenda. Quando começar a construir, aí sim acredito que a especulação cresça, mas, por enquanto, não está tendo”, avalia o corretor.

Cenário positivo para o mercado imobiliário em geral

Segundo o diretor do Creci-BA, Noel Silva, o movimento que acontece neste momento na Ilha é um movimento normal do mercado imobiliário. “A partir da pandemia, tivemos uma valorização desse ramo como um todo. E aqui merecem destaque os destinos de praia, como a própria Ilha e o Litoral Norte, por exemplo, porque a pandemia fez com que as pessoas repensassem onde morar e de que forma morar, muito influenciadas pelo home office”, opina.

Apesar de considerar precipitado um diagnóstico do impacto da construção da ponte na Ilha, o diretor afirma que esse impacto é uma certeza, mesmo que não agora. “É questão de tempo, a construção ainda está um pouco incerta em termos de prazo já que ainda não foi iniciada. Esse tipo de investimento demora para ficar pronto, então as pessoas ainda têm um pouco mais de receio de colocar dinheiro nisso. O metrô de Salvador, que era uma obra mais simples, acabou demorando 14 anos”, explica Silva.

O corretor de imóveis Arthur Pimentel destaca as dificuldades atuais de acesso à Ilha e como isso pode mudar com a ponte. “Sempre que temos feriados e alta estação, as pessoas sofrem para poder se deslocar até lá por conta da logística do ferry-boat, então essa demanda crescente dos últimos anos acabou se espalhando para outros locais, como a Linha Verde, que vêm se valorizando cada vez mais. A criação da ponte pode fazer com que a Ilha seja a nova Linha Verde”.

Além da movimentação de turistas e de pessoas interessadas em adquirir casas de praia, Pimentel também pontua o crescimento de novos moradores. “A partir desse acesso facilitado à Ilha, a gente vai poder perceber um movimento tanto de casa de praia quanto de moradia mesmo”, acrescenta.

O corretor ainda coloca que a ponte pode significar novos empreendimentos na Ilha, impactando o mercado imobiliário também do entorno, inclusive, de Salvador. “Se o mercado de novos empreendimentos cresce na Ilha, levando mais moradores para lá, isso pode aquecer ainda mais o mercado de usados aqui em Salvador, que já vem sendo impactado positivamente por conta da pandemia e da redução das taxas de juros”, finaliza.

O contrato entre o consórcio e o governo do estado para a construção da ponte Salvador-Itaparica foi assinado em novembro de 2020. Pelo documento, ela deve ficar pronta até novembro de 2025.

O investimento total será de R$ 5,4 bilhões, sendo R$ 1,5 bilhão do governo baiano. Segundo a Secretaria de Infraestrutura da Bahia (Seinfra), todos os recursos já estão alocados. A concessão do projeto é executada por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) com dois grupos chineses, entre os maiores do mundo no segmento de construção: China Railway 20th Bureau Group Corporation (CRCC20) e China Communications Construction Company (CCCC).

Prefeitura de Itaparica diz que especulação começou com anúncio de ponte

Segundo o Secretário de Finanças e Planejamento do município de Itaparica, Emilio Franz, a especulação vem acontecendo desde o anúncio da construção da ponte, em 2010. “Logo no início, terrenos que eram vendidos aqui a R$ 3 mil, R$ 5 mil, começaram a ser vendidos a R$ 20 mil, R$ 30 mil. Depois, isso esfriou um pouco e passamos a ter aumento da ocupação irregular, com invasões, desmatamento, etc., então essa especulação veio dos dois lados. Mas desde essa notícia, a ponte vem sendo o tópico principal. Quem ia vender um terreno, dizia que ia esperar a construção da ponte ou então já vendia logo, mas por um valor mais elevado”, afirma.

A ponte deve valorizar os terrenos e imóveis pela facilidade do acesso, mas também por conta das melhorias na infraestrutura da cidade, como consequência disso. Segundo Franz, um acordo com o governo do estado foi estabelecido em 2013 para a realização de obras nas ilhas, o que é previsto em lei em casos de intervenção de grande impacto como a ponte em questão.

“Nós temos, por exemplo, deficiências em relação à internet, esgoto, energia elétrica, mobilidade urbana, etc. E isso sempre fica evidente no Verão porque saímos de 70 mil moradores e saltamos para 300 mil”, destaca o secretário.

Franz coloca ainda que o objetivo é que a ponte traga desenvolvimento contínuo para Itaparica. “A gente não quer que isso seja depois como uma espécie de ‘cidade fantasma’. Tivemos aqui um estaleiro que trouxe muita gente, demandou estrutura e depois só deixou pontos negativos. Para que isso não aconteça com a ponte, nosso pensamento está mais além. E exigimos como condicionante que a maioria da mão de obra seja local, o que vai trazer uma renda importante para os moradores das ilhas e fortalecer a economia”, finaliza.

Procuradas, a Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA) e a prefeitura de Vera Cruz não deram retorno para comentar o assunto.

Veja as etapas do projeto da ponte:

Trecho 1 – Acessos viários em Salvador
Construção das estruturas que compõem os acessos em Salvador, entre os bairros da Calçada e Água de Meninos e um conjunto de viadutos, além de dois túneis praticamente paralelos aos existentes na Via Expressa.

Trecho 2 - Ponte Salvador-Itaparica
Após conclusão do sistema viário de Salvador, começam as obras da ponte Salvador-Itaparica. Nesse trecho, a construção foi dividida em três etapas: trecho de aproximação na Ilha de Itaparica, com 4.6 km, trecho de aproximação em Salvador, com 6.9 km de extensão, e trecho estaiado, com 0.9 km de comprimento e 85 m acima do nível do mar.

Trecho 3 - Acessos viários em Itaparica
O Sistema Viário que será construído em Itaparica possui cerca de 30 km de extensão, entre a chegada da Ponte Salvador–Itaparica até a Ponte do Funil, através de uma nova rodovia projetada, que compreende a construção de viadutos incorporados em três interseções.

Trecho 4 - Recuperação e ampliação de trecho da BA-001, nas proximidades de Cacha-Pregos até a Cabeceira da Ponte do Funil.

 

Itens relacionados (por tag)

  • Após quase 35 anos, Cia Baiana de Patifaria anuncia fim das atividades

    Um dos mais tradicionais grupos de teatro da Bahia fechará as portas. O ator e diretor Lelo Filho anunciou que a Cia Baiana de Patifaria, com seus quase 35 anos de trajetória, deixará de existir.

    O grupo é responsável por espetáculos históricos como A Bofetada e Siricotico.

    No post de Lelo, ele conta que o fim se deu por falta de incentivos. O projeto não passou em nenhum edital recente na Lei Aldir Blanc, nem pelo município ou estado.

    "Estamos na lista de grupos de teatro que, por possuir sede, tiveram ou terão que encerrar suas atividades. Não houve quem tivesse conseguido salvar sedes de grupos artísticos, espaços culturais e, até mesmo, teatros que a cidade perdeu no último ano e meio. Hoje é, com toda certeza, um dos dias mais tristes nesses meus quase 40 anos de teatro, quase 35 deles dedicados à Cia", escreveu o diretor.

    A Cia também enfrentou, assim como praticamente todo mundo que vivia do teatro, problemas financeiros durante a pandemia. Uma vaquinha virtual chegou a ser feita para angariar fundos.

    História
    Tudo começou em 1987 graças aos atores Moacir Moreno e Lelo Filho. A primeira peça de teatro feita pela trupe foi “Abafabanca”, que estreou naquele mesmo ano e ficou 10 meses em cartaz.

    De lá pra cá, são oito peças no repertório: a já citada "Abafabanca", A Bofetada, “Noviças Rebeldes”, “3 em 1”, “A Vaca Lelé”, “Capitães da Areia”, “Siricotico” e “Fora da Ordem”.

    A Bofetada é o grande sucesso e está nos palcos há 29 anos, viajou a 54 cidades brasileiras, conta com personagens emblemáticos e direção de Fernando Guerreiro.

    Teatro digital
    Em julho deste ano, a sede da Cia Baiana de Patifaria, o Casarão 15, foi transformado em um teatro virtual, de onde artistas ou qualquer profissional de outro segmento poderão realizar seus projetos e transmiti-los por fibra ótica via internet para todo o mundo. O espaço, que passa a chamar Casarão 15 Digital também se tornou uma espécie de museu artístico com todo acervo de mais de 34 anos da Cia Baiana de Patifaria.

    “Estamos equipados com luz e som digitais, além de telas de cinema e chroma-key. E tudo atendendo aos protocolos de segurança”, explicou Lelo Filho em entrevista ao colunista Ronaldo Jacobina, do CORREIO, na época.

  • Mesmo sem reajuste da Petrobras, preço da gasolina chega a R$ 7,30 em Salvador

    A Petrobras não promoveu nenhum reajuste no preço dos combustíveis durante todo o mês de novembro. Apesar disso, a gasolina está pesando ainda mais no bolso dos consumidores baianos. Nos postos de Salvador, o litro do produto já está sendo vendida por até R$ 7,30. O motivo para esta alta, segundo os representantes do setor, é o risco de desabastecimento provocado por a Petrobras não conseguir atender todos os pedidos feitos pelas distribuidoras para o fornecimento de combustíveis.

    Para lidar com o problema, de acordo com Walter Tannus, presidente do Sindicato dos Revendedores de Combustíveis do Estado (Sindicombustíveis), as distribuidoras estão tendo que importar gasolina mais cara e o preço é passado para os postos, que decidem se repassam ou não o valor a mais para o consumidor. “É uma decisão empresarial. Alguns seguram o preço até quando podem e outros precisam repassar”, explica.

    De fato, de acordo com o aplicativo Preço da Hora, na tarde dessa terça-feira (30), ainda haviam 17 postos de combustíveis na Região Metropolitana de Salvador (RMS) vendendo gasolina pelo preço anterior ou até abaixo. A maioria, no entanto, já tinha atualizado os valores para, em média, R$ 6,93.

    “As distribuidoras importam combustíveis e, segundo elas, o produto chega mais caro do que é o da Petrobras. Quando chega no final do mês, a situação se agrava, pois o estoque está baixo e eles precisam acelerar a importação. Aí o preço só aumenta”, relata Tannus.

    Sadi Leite, diretor executivo do Sindicato das Distribuidoras de Combustíveis do Estado da Bahia (Sindicom), reforça essa justificativa. “A Petrobras informou para as distribuidoras que não ia conseguir ofertar a quantidade de pedidos e, realmente, o mercado tá tendo que se valer da importação. Hoje, a gasolina importada é de R$ 0,10 a R$ 0,20 mais cara, no geral”, afirma.

    Somado esse custo extra com impostos que incidem sobre a importação, o preço da gasolina é ainda mais encarecido, o que justificaria o valor de R$ 7,30 no litro encontrado na segunda. A situação é tão séria que alguns representantes das distribuidoras chegaram a alertar para o perigo de acontecer desabastecimento de combustíveis.

    A Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Bicombustíveis (Brasilcom) chegou a divulgar uma nota alertando do perigo.

    “As reduções promovidas pela Petrobras, em alguns casos chegando a mais de 50% do volume solicitado para compra, colocam o país em situação de potencial desabastecimento, haja vista a impossibilidade de compensar essas reduções de fornecimento por meio de contratos de importação, considerando a diferença atual entre os preços do mercado internacional, que estão em patamares bem superiores aos praticados no Brasil”, disse.

    Sadi Leite é mais cauteloso e afirma não haver risco de desabastecimento. “Não existe nenhuma possibilidade, em parte por causa da importação e em outra porque a Petrobras vai ter que se virar para atender, pelo menos, os clientes que tem contrato. Ela não vai deixar faltar produto”, confia.

    FUP diz que quase 500 mil barris de derivado de petróleo são importados por dia para o Brasil
    Deyvid Bacelar, coordenador geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), também considera que o aumento no preço dos combustíveis é por conta da busca pelo mercado internacional. “Nós temos denunciado há algum tempo esse problema, que é gerado pelo aumento na capacidade ociosa das refinarias no Brasil. Atualmente, temos uma média de 67% de utilização da nossa capacidade de produção. Se não usa o restante, cresce a dependência de importação”, diz.

    Segundo Bacelar, quase 500 mil barris de derivado de petróleo são importados por dia para o Brasil, o que encarece os preços dos combustíveis em todo o território nacional, não apenas na Bahia. “Nós defendemos que as refinarias voltem a operar com quase 100% da sua capacidade, como era em 2014. O Brasil decidiu por essa política que torna a população, as distribuidoras e os postos reféns dos importadores”, aponta.

    Os especialistas ouvidos pela reportagem consideram que esse problema é compartilhado com os outros combustíveis, como o diesel e o gás natural. Ambos, porém, não arriscam em dizer que a tendência de alta, por esse motivo, vai se manter em 2022.

    “Vai depender muito da postura de Petrobras ou do preço internacional. É algo imprevisível. A gente espera que o peço do petróleo baixe e o dólar também”, afirma Walter Tannus.

    Segundo a Petrobras, essa incapacidade de abastecimento completo não está relacionada com algum problema de produção da empresa e sim com o crescimento do pedido das distribuidoras, o que aumentou por causa da pandemia. “A gente não esperava um crescimento tão grande. Na Bahia, estamos com um volume de vendas próximo ao de 2014, quando atingimos a nossa melhor média. O diesel tem sido bem demandado por causa dos caminhões que estão rodando para todos os lados nessa retomada”, considera Leite.

    Até o momento, em 2021, a Petrobras realizou 15 reajustes no preço da gasolina, sendo 11 aumentos e quatro reduções. No total, o valor do combustível vendido nas refinarias teve crescimento de 74%. Já o diesel teve 12 reajustes, sendo nove aumentos e três reduções que totalizaram um crescimento no preço de 65%. O último reajuste aconteceu no dia 26 de outubro e levou a gasolina a custa R$ 3,19 e o diesel R$ 3,34. Confira a lista de todos os reajustes feito pela empresa:

    Gasolina
    19 de janeiro – R$ 1,98
    26 de janeiro - R$ 2,08
    8 de fevereiro – R$ 2,25
    18 de fevereiro – R$ 2,48
    1º de março - R$ 2,60
    9 de março - R$ 2,84
    20 de março - R$ 2,69
    25 de março - R$ 2,59
    16 de abril – R$ 2,64
    1º de maio – R$ 2,59
    12 de junho – R$ 2,53
    6 de julho – R$ 2,69
    12 de agosto – R$ 2,78
    8 de outubro – R$ 2,98
    26 de outubro – R$ 3,19

    Diesel:
    26 de janeiro - R$ 2,12
    8 de fevereiro – R$ 2,24
    18 de fevereiro – R$ 2,58
    1º de março - R$ 2,71
    9 de março - R$ 2,86
    25 de março - R$ 2,75
    9 de abril – R$ 2,66
    16 de abril – R$ 2,76
    1º de maio – R$ 2,71
    6 de julho – R$ 2,81
    28 de setembro – R$ 3,06
    26 de outubro – R$ 3,34

  • Bahia é o segundo estado com a maior taxa de desocupação do Brasil

    A Bahia possui a 2ª maior taxa de desocupação do Brasil. Ao todo, 18,7% dos baianos em idade produtiva não trabalham, apesar de buscarem um emprego. O estado fica atrás somente de Pernambuco, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados nesta terça-feira (30). O índice baiano também é bem superior à média nacional, de 12,6%.

    A baiana Juliane Sailer, 21, trabalhava em Minas Gerais quando a pandemia estourou, no início do ano passado. Com o salário reduzido por causa do home office, ela teve que retornar para a Salvador, para morar com a mãe. Em julho, a jovem perdeu o emprego, mas poucos meses depois, conseguiu outro, também no setor de vendas e online. Três meses depois foi demitida novamente e, desde então, está desempregada. “Agora tô tendo que me reinventar e resolvi trabalhar com algo que sempre quis”, afirma a jovem, que investe em seu trabalho como artista.

    Juliane, no período em que procurou emprego, foi considerada uma pessoa desocupada pelo IBGE. O grupo dessas pessoas teve uma leve redução se comparado ao segundo trimestre de 2021, mas chega a 1,336 milhão de pessoas na Bahia. “A pessoa desocupada é a que tomou uma providência para procurar trabalho, até a semana anterior da pesquisa, e que, se encontrasse, poderia trabalhar. Se usa esse termo porque nem sempre quem está trabalhando está empregado”, explica Mariana Viveiros, supervisora de disseminação de informações do IBGE na Bahia.

    Se antigamente uma graduação universitária ou curso técnico era passaporte para o mercado de trabalho, hoje em dia a situação parece mais complicada. Ana Paula Sobral, 46, fez curso técnico de segurança do trabalho e gestão comercial, mas nunca conseguiu emprego em nenhuma das duas áreas. Desde que era mais jovem, ela trabalhava com o pai gerindo a logística no setor de transportes. Durante a vida adulta, com duas filhas para sustentar, ela conseguiu trabalhar em duas empresas desempenhando funções parecidas com as que aprendeu com o pai.

    Depois de sair do último emprego, ela, que mora em Lauro de Freitas, passou cerca de dois anos, entre 2018 e 2019, procurando emprego, mas sem sucesso: “O que eu mandei de currículo não foi brincadeira. Nesses dois anos que fiquei procurando, acho que não consegui por causa da idade. Minha filha chegou a falar um dia para eu desistir, porque nessa idade eu só conseguiria trabalho se alguém me indicasse”, relembra Ana Paula.

    No ano passado, ela conta que desistiu de arranjar um trabalho: “Se já não tinha antes, na pandemia foi pior ainda”, desabafa. Nesse período, ela entrou para o grupo de desalentados, isto é, a parte da população que não trabalha e nem procura por não conseguir colocação por falta de experiência ou pela idade.

    A Bahia é o estado com maior número absoluto de desalentados do país desde 2012, segundo o IBGE. No estado, atualmente, são 655 mil pessoas nessa condição. Agora, Ana Paula, por falta de opção, trabalha vendendo cosméticos na empresa do ex-marido, pai de suas duas filhas, mas sem carteira assinada.

    Informalidade puxa o aumento de ocupações

    De cada 10 pessoas empregadas hoje na Bahia, seis são informais. Do segundo para o terceiro trimestre de 2021, o estado registrou saldo positivo de 355 mil novos postos de trabalho, desses, 233 mil sem carteira assinada. No terceiro semestre deste ano, esse grupo chegou a 3,226 milhões de pessoas.

    O aumento da informalidade no mercado de trabalho baiano, em termos absolutos, foi puxado com mais força pelos trabalhadores por conta própria sem CNPJ. O aumento foi de 83 mil pessoas entre o segundo e terceiro trimestre. Yago Castro, 29, é uma dessas pessoas. Seu primeiro emprego, há 10 anos, foi como auxiliar administrativo em uma empresa hospitalar. Lá, chegou a ganhar dois salários mínimos. Mas, há dois meses, foi demitido.

    Deu entrada no seguro desemprego e, desde então, se desdobra para conseguir se sustentar. Ele, que vive na Cidade Baixa com a mãe, transformou o hobby de cuidar de plantas em empreendimento próprio e agora vende arranjos pelo Instagram.

    “Mas agora eu sinto que só estou trocando dinheiro”, desabafa Yago. Ele conta que conseguiu cerca de 500 reais com o novo trabalho, mas que o roubo do cilindro do ar condicionado do seu carro também pesou no bolso. O jovem tem planos de expandir o empreendimento das plantas, que cultiva dentro da própria casa.

    “A pandemia teve efeitos bem fortes no ano passado, as pessoas pararam de trabalhar. Agora a gente tem uma recuperação da ocupação, mas puxada pela informalidade, porque ainda não há um dinamismo econômico suficiente para oferecer vagas formais de trabalho”, elucida Mariana Viveiros. Ainda segundo ela, este é um movimento clássico de retomada pós crise, em qualquer lugar. Segundo o IBGE, o número de pessoas desocupadas registra queda desde o terceiro trimestre do ano passado.

    A supervisora também fala sobre o cenário do mercado local, que costuma absorver mais empregados informais historicamente. “Essa realidade é observada no país inteiro, mas, alguns mercados de trabalho, como o baiano, que já têm uma informalidade elevada independentemente de pandemia, esse movimento é ainda mais forte”, exemplifica Mariana.

    Poder aquisitivo diminui com a informalidade

    O rendimento médio dos trabalhadores na Bahia ficou em R$ 1.538 no terceiro trimestre de 2021, este representa o mais baixo índice para o estado em nove anos de série histórica. Mariana Viveiros afirma que a queda é decorrente direto do aumento dos postos de trabalho informais: “O crescimento da informalidade ajuda a puxar o rendimento médio para baixo, porque as pessoas ganham menos”.

    Keyla da Silva, de 53 anos, sente isso na pele. Ela começou a trabalhar aos 17 anos e conta que já vendeu de tudo desde então, de roupas a produtos hospitalares. Em 2017, Keyla, que é natural do estado de São Paulo, mas mora na Bahia há 20 anos, se formou em administração, mas conta que nem assim a sua situação no mercado de trabalho melhorou.

    Ela conta que devido à idade, tem dificuldade de conseguir emprego no setor de vendas e que uma vez chegou a ouvir que “mulher na área comercial só é contratada até os 40 anos”. Sem emprego formal desde que a loja em que trabalhava fechou no início deste ano, Keyla diz que nunca parou de mandar currículo.

    Atualmente, ela atua vendendo produtos alimentícios, como camponatas, mas que não é suficiente para sustentá-la. Seu marido, que chegou a ser supervisor de vendas de multinacionais, também perdeu o emprego e hoje é motorista de uber. Os dois moram em Lauro de Freitas.

    “Tivemos uma perda de poder aquisitivo enorme. A nossa sorte hoje é que temos casa própria e não precisamos pagar aluguel”, desabafa. Keyla revela que pensa em conseguir um empréstimo e abrir seu próprio negócio, mas que não se sente segura, devido à crise econômica. “Eu e meu marido brincamos que vendemos tudo, só falta vender caixão”, descontrai.

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.